Acendo o cigarro, olho-o enquanto saboreio cada bocadinho do fumo que entra e sai dos meus pulmões… Penso na vida, comparo este cigarro á vida, cada passa um momento marcante, umas mais intensas, outras menos, enquanto arde sozinho é como que fosse a mera rotina diária, a cinza a acumular, a minha memoria curta… Um queimar irregular faz-me lembrar que até os momentos mais intensos, os melhores têm altos e baixos…
A cinza cai sozinha, lembra-me que ás vezes não precisamos de fazer nada para seguir em frente e aprendermos a viver com o passado, o passado simplesmente continua no presente mesmo sem estar lá, mas nem sempre nos lembrámos…
Apago-o ao fim de tantos momentos, de tantas memorias esquecidas que o compõem … O filtro amarrotado no meio de tantos outros filtros, no meio de tanta cinza abandonada… Um filtro de morte, que filtra a memoria, os sonhos, os momentos, talvez para nem tudo parecer tão cinzento, como um dia foi para nós…
Posso ser tudo o que quiserem, nunca serei o que quero, não sei porquê, aos vossos olhos, posso ser tudo, aos meus, que parecem feitos de vidro, sou uma imensidão de nada… Já fui estudante (já não sou), já fui criança (quem me dera voltar a ser), já soube escrever (será?), já procurei o amor (nunca o encontrei)…
Só me falta dar a volta ao mundo para definitivamente gritar ás alturas…
…O lua, ó noite, ó trevas, ó mares….. o vosso ser povoa o meu ser, vos sois tudo o que me transforma, em lobisomem, em demónio, em sombra e até em sereia se o tiver que ser…. Mas por favor, deixai-me morrer…
As arvores como que se vergam de encontro a mim, as nuvens parecem prestes a cair sobre todo o meu ser que já esteve mais longe de voar, e eu continuo de olhar prostrado no infinito… a pensar no nada, que me consome a alma… Alma negra de carvão de fácil combustão, negra e quente, a febre já me consome também, e o meu pensamento no nada a ser consumido com todas as minhas consumições…
Consumo-me, consome-me…
…e a minha alma arde…
…e eu ardo…
…queimo-me, brinco com as chamas…
…elas não brincam comigo…
…consomem-me…
E eu? Que é feito de mim após tanta consumição?
Fui Consumido por um fogo que eu fui criando, com que brinquei, e que brincou comigo…
Uns lençóis vazios de ti…. Chamam pelo teu perfume, querem sentir o teu corpo outra vez, há quanto tempo não são tocados? Nunca mais sentiram alguém ao meu lado depois de ti… Já algumas estiveram perto deles, mas nunca os sentiram, nunca consegui abrir a cama a mais ninguém…. Já tentei, mas fiquei sempre por uma cama amarrotada por desfazer…. Porquê? Não sei… Talvez por só contigo ter feito amor, mesmo amor… Aquelas tardes, tantas horas de prazer, uma música de fundo criada pelo bater dos nossos corações, como era bom… nunca mais foi mesmo bom, e contudo foram as vezes que era mais desajeitado, que era mais inocente, mas ainda representam uma das melhores definições de amor, de sexo, de…
O que procuramos verdadeiramente no sexo? O prazer? A intensidade do momento? Uns simples orgasmos? Sim acho que cada vez mais se tornou nisso, uma maneira de obtermos uma sensação como existem poucas, de uma maneira tão fácil… É fácil arranjar alguém com quem irmos para a cama (quem diz cama diz qualquer sitio onde possa ser feito, e acreditem poucos são impossíveis, é tudo uma questão de horários…. Ou nem isso….), umas horas, uma noite…. Mas quantas pessoas podem dizer que uns lençóis sentem a falta de alguém? Eu posso, e por isso quero voltar a encontrar alguém que faça os meus lençóis ganharem um novo perfume… e chamarem por ele, se um dia ele não volta á hora do costume….
Envolve-me…

Envolve-me na tua alma de seda, e aperta-me até já não sentir quem sou, como que se fizesse parte da seda, como se eu fosse cada uma e todas as linhas da tua alma…
Quando voltarei a conhecer alguém assim? Como é que alguém me poderá conhecer a tal ponto? EU sou aquele que alguém conheceu num café, o alguém que estuda com alguém, o alguém que conversou com alguém, o tal que beijou alguém, o que fez amor com alguém, o que enganou alguém, o que fez o que não deveria ter feito com alguém, o que disse algo a alguém, o que fugiu de alguém, o que bateu a alguém…. Enfim… Sou alguém e não sou ninguém… Queria apenas ser o alguém, o tal para a tal, mas a tanto tempo que não o consigo…. Apenas vou sendo um fio aqui, um fio ali, nunca o tecido por inteiro, nunca, mais que uma mancha num lençol, nunca, mais que um perfume que se esvanece com o tempo, uma memória esquecida….
Queria conhecer alguém e que alguém me quisesse conhecer como um todo, com o bom e o mau… Com o eu, o meu outro eu, e o outro ainda….
E a seda? Quando é que me apertas com a ela? Quando me irás envolver nela? Quando nos envolvermos nela? Quando nos tornaremos a Seda?